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Fã de MPB a frente de uma banda híbrida. Essa é a definição de Theo, o vocalista d’Os Irmãos da Bailarina. Eu tenho uma certa história com essa banda. Moro no bairro do Bonfim, na chamada Península Itapagipana. Apesar do clima gostoso de interior, da proximidade com praias e da segurança (decorrente do afastamento do resto da cidade), não há aqui muita opção de lazer. Antigamente acontecia uma manifestação cannabico-cultural, o chamado “Régue”. Bandas tocavam ao pé da colina sagrada, sob a proteção do Senhor do Bonfim e muita gente se reunia para prestigiá-las.
Eu era freqüentador assíduo daquele espaço, até Os Irmãos aparecerem por lá. Sim, queridos, eles foram responsáveis pela minha desilusão.
Acontece que eles foram o auge daquilo ali. Percebi que ouvia todo sábado os arranhões de amigos meus, tacando em bandas com 2 ou 3 ensaios de vida. Os Irmãos vieram em outro patamar, com músicos consistentes. Dava pra sentir um projeto naquilo, um futuro. Não preciso dizer que me ganharam na hora, sou admirador de coisas bem feitas, feitas com amor.
Durante muito tempo acompanhei a banda (mais precisamente, quase que todos os seus 3 anos de existência) e desde que entrei para o Rei Djou, tive vontade de fazer uma matéria com eles. E consegui.
Theo formou a banda, que é fruto de um trabalho solo, Martelobigornaestribo. Lançado pelo Faz Cultura, o “solo” foi uma exigência, mas assim que deram brecha essa solidão foi pro espaço. Passaram de “Theo e Os Irmãos da Bailarina” pra Os Irmãos da Bailarina. Acontecido que não mexeu somente no nome da banda, mas também no seu comportamento musical. Agora eram Banda, influências diversas que pesam de forma equivalente no processo criativo. Um caminho, uma linha estética que estava sendo criada nesse momento hoje já é algo táctil.
Pelo MPB, a alma da música salta aos ouvidos com letras de carga poética, influência dos ícones mais “novos” como Chico Buarque, e mesmo de sambistas clássicos como Adoniran Barbosa. Já a mente da música, formada Ricardo Rilo na guitarra, Tom Sá no baixo e Mark Mesquita na bateria, apresenta um rock bem trabalhado e intelectual, não no sentido de pretensioso, mas racional. Sinto neles uma preocupação (inerente aos bons músicos) com a melhor forma de expressar musicalmente um sentimento. É uma combinação primorosa. Enquanto as palavras dão um tom intimista e pessoal, sem podar a identificação com o ouvinte, o arranjo tem o “dar-a-cara-a-tapa” característico do rock.
O novo álbum, “Ponta”, exprime o amadurecimento dos Irmãos. O cuidado com a musicalidade própria, a busca da identidade é visivelmente um objetivo. É muito bom ver uma banda de Salvador alcançar esse nível de cuidado, de carinho com seu produto.
Por fim, quero re-bater numa tecla importantíssima. Durante a nossa conversa, indaguei Theo e Ricardo a respeito das condições soteropolitanas para se fazer rock, e tivemos uma constatação mútua: a falta de participação e profissionalismo. É preciso, antes de bradar por apóio, que haja algo sólido para ser apoiado. Ninguém joga dinheiro no lixo, nem a iniciativa privada nem o Estado. E por jogar dinheiro no lixo entendam investir num projeto amador e mal planejado. Existem inúmeros editais acontecendo no Brasil e quase nenhum projeto baiano inscrito. Para a existência de um mercado, precisamos de profissionais, pessoas que pensem o rock como uma profissão, uma forma de ganhar a vida. Bandas que já pensam assim são as mais conceituadas, como Cascadura, Ronei Jorge e Os Ladrões de Bicicleta e Retrofoguetes (que, por sinal, teve um projeto contemplado pelo governo e tocou no Carnaval, no circuito Barra – Ondina, em cima dum Trio Elétrico). Mas ainda não é o bastante. Meia dúzia de andorinhas não vai fazer nosso verão. Pensem nisso, pois Os Irmãos da Bailarina já pensaram e estão trabalhando para tal. São sim, junto com os outros já citados, um exemplo a ser seguido. Não somente pelo profissionalismo, mas são exemplo também pela preocupação com o crescimento da cena. Os Irmãos estão sempre envolvidos em projetos de comunhão entre bandas, sempre prezando pela diversidade, pelo fim do preconceito. A grande questão é unir o rock. Quando se abrem espaços (como a Boomerangue, casa de shows da qual Theo é um dos sócios), tomam-se iniciativas de integração, todos ganham.